Morreu António Marques Baptista, o antigo director da Polícia Judiciária (PJ) que deteve ‘Dente Partido’, o histórico líder da tríade 14K. “Ele podia ter ficado de mãos cruzadas”, mas enfrentou “sem medo” a guerra de tríades que marcou o período antes da transição, recorda João Augusto da Rosa.
Vítor Quintã
“Se não fosse ele, quem iria prender Dente Partido?” A pergunta de João Augusto da Rosa, adjunto do comandante-geral dos Serviços de Polícia Unitários, volta ao momento marcante da carreira de Marques Baptista como director da PJ de Macau: a detenção de Wan Kuok Koi, c, também conhecido por Pang Nga Koi ou ‘Dente Partido’. O último director da PJ antes da transição faleceu na sexta-feira, em Lisboa, aos 66 anos, vítima de doença prolongada.
Marques Baptista chegou ao território em 1995 e, numa mensagem de condolências, a polícia reconhece que, “durante o seu mandato, a segurança de Macau passou por um período de instabilidade”. Augusto de Rosa, que na altura era sub-inspector da PJ e trabalhava com Marques Baptista, é menos comedido nas palavras e recorda 1997 e 1998 como “a altura mais crítica, por causa das tríades, com tiroteios, muitos homicídios, extorsões, sequestros”.
Os últimos anos da administração portuguesa ficaram marcados por uma guerra entre tríades pelo controlo dos casinos, que causou a morte a 34 pessoas, várias das quais baleadas na rua em pleno dia. A violência atingiu um pico na manhã de 1 de Maio de 1998, quando uma bomba destruiu o carro de Marques Baptista, que tinha ido à Colina da Guia dar uma corrida.
“Atentado muito grave”
Foi imediata a resposta do homem também conhecido por ‘Rambo’ e que ontem na imprensa chinesa foi repetidamente descrito como “alto, forte e barbudo”. O Governo reuniu de emergência e, nove horas depois, Marques Baptista conduziu pessoalmente a operação que deteve ‘Dente Partido’ numa sala privada do Hotel Lisboa, onde revia a entrevista que dera a uma estação televisiva sobre o filme autobiográfico que o retratava como o grande líder das tríades. Foi o próprio Marques Baptista a levar o líder da tríade algemado, como mostram as fotografias da altura.
A tese de atentado foi mais tarde questionada em tribunal e pela imprensa, reconhece Augusto da Rosa, que no entanto nega que tenha havido “fantochada” para incriminar Wan Kuok Koi. “Houve um atentado muito grave, foi esse o resultado da nossa investigação”, diz o então sub-inspector da PJ. Ainda assim, ‘Dente Partido’ acabou por não ser acusado de qualquer crime em ligação a este incidente.
Pan Nga Koi, com cidadania portuguesa, acabou condenado a 23 de Novembro de 1999 por crimes de conversão, transferência ou dissimulação de bens ou produtos ilícitos, exploração ilícita de jogo e usura para jogo e violação de correspondência ou telecomunicações. Graças à aprovação de legislação contra o crime organizado, a polícia deteve cerca de 1.700 indivíduos entre 35 mil alegados suspeitos.
“Não teve medo”
“Com coragem e imparcialidade”, Marques Baptista liderou a PJ “no combate a todo o tipo de criminalidade que influenciava negativamente a segurança desta cidade”, recorda a polícia. Mas “não foi fácil”, sublinha Augusto da Rosa, pois, por razões de segurança, o director teve de mudar de casa e “ficou a morar na PJ quase meio ano com a mulher e a família”. Como faltava pouco tempo para a transição, diz o oficial macaense, “podia ter ficado de mãos cruzadas, mas não. Ele não teve medo, enfrentou a altura mais difícil e assumiu a responsabilidade da estabilidade de Macau”.
O agora adjunto do comandante-geral acompanhou o português ao aeroporto no dia 20 de Dezembro de 1999, quando ele regressou aos quadros da PJ de Portugal. A partir daí, o percurso de Marques Baptista é discreto, contando ainda com uma passagem pela Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) em Paris.
Augusto da Rosa acredita que ainda hoje a reduzida criminalidade grave registada na cidade deve muito à coragem de Marques Baptista, que lançou um movimento mais vasto de combate ao crime organizado e de pacificação do submundo do jogo. “É um dos portugueses que mais merece um elogio” por parte de Macau, diz o adjunto.
Fonte: Ponto Final Macau